Em outubro de algum ano indigesto e de algum lugar cuja ciência sobre se dá por desnecessária, um tiro pôde ser escutado na atmosfera febril, tendo atingido uma algibeira esquecida na calçada, em frente a uma loja de conveniência igualmente desinteressante e assimilada ao poder do tempo de corroer a matéria. Uns poucos passos dali para o Sul estaria o autor do disparo, isso se já não estivesse a meio caminho de evaporar pela ladeira de pedra, veloz como a morte súbita e camuflado como um átomo na névoa, visto que ela já não permitia ver um palmo a frente do nariz. Errou o tiro, ma o local...
Foi decisão bem acertada, essa de correr ao subúrbio voluptuosamente vaporoso, estonteante - mas não de beleza, que falo mesmo é da planta. Se bem que sua folha não deixa de ser, contudo, bela; Deus sabe como a planta aos montes ia tomando seu lugar nos objetivos mundanos, numa curva exponencial direcionada para aquele profundo limbo entre uma ligação neurônica e outra.
Subiu o bairro atento. Não sei a quê, que seu perseguidor parecia ver tanto quanto cego em tiroteio. Ouviu um barulho aleatoriado e coziu a sola do pé no asfalto ruas adentro durante uns três Faroestes Caboclos e meio, tropeçando como o cata-buracos que era, até achar freio preciso: um tiro que lhe raspou o cocuruto e por tão pouco não lhe apaga a memória que já não sabe se carrega o nome de D. Margarida ou D. Inácia, tampouco se é um desses o nome da finada sua mãe. Mais um, no umbigo fundo, que calou o incômodo da falta de cagar. O rapaz nada disse, mas podia ver o vapor saindo das carnes fermentadas de suas costas no asfalto se misturando com a fumaça de erva da atmosfera enquanto era arrastado pelo membro - o pé - até uma possível desova.
Quando chegasse talvez tivesse a sorte de ter as tripas já tão macias da fervura, que pela primeira vez teria a fome aquietada pelo tempo de um livro de salmos; mesmo assim, admitiu por bem chamar por Deus pelo caminho.
O homem que o capturou tirou o quepe e o uniforme e atarraxou-se com a bunda na poltrona de casa. Na manhã seguinte passaria o serviço para "o outro cara", aquele que fazia o trabalho realmente sujo. Travou o revólver e contou uns cinco maços de notas, que atirou sobre a cama onde repousavam uns papéis de importância relativa (em relação ao dono, duvidosa) onde constava um símbolo pomposo de cunho governamental. Neles, lia-se: POLÍCIA FEDERAL - TRABALHANDO PARA A SUA SEGURANÇA.
O documento abaixo era uma descrição da visivelmente bem-sucedida campanha de desarmamento daquele ano.
Descendo pr'um subsolo uns bocados, estavam uma saleta perfumada a gases fecais e lama três ratos, duas baratas e três corpos. Porém, diferente do que pensas, não estavam no caminho para a luz, senão com as pupilas bem dilatadas e acostumando-se à escuridão que era aquela espelunca. Olhavam-se: o garoto com a fome e a carne cozida, e aquela coisinha minúscula, a morena dos olhos grandes que nunca conheceu o amor consensual - em nenhum dos sentidos. Duas almas arrancadas da inocência juvenil que encontram uma bifurcação em seu caminho que as leva, lado a lado, a tropeçar sobre seu pequeno grande dilema moral.
Vingança ou morte.
Morte ou vingança.
Creio eu que morte nos dois casos, já que vingança e morte nem parecem mesmo esses dois caminhos adversos. Se o são, não de morte morrida ou matada, mas morte da alma e do corpo. No entanto, ambos já estavam putrefando suas almas. Não se pode dizer o contrário do pobre garoto que ali esperava a necrose carnal com desespero. Seriam, assim, mortos de qualquer maneira? Talvez eu tenha acabado de me debruçar sobre um paradoxo de pinóquio, afinal. Prossigamos, que vingança é para os não-mortos, e temos duas criaturinhas de olhos acesos de vontade de viver.
Não obstante, havia um defunto apenas no recinto.
O fruto da obscenidade humana coberto de sangue seco que mais parecia um coágulo grande demais. Crescia (?) de dentro da moça, como um pequeno broto de batada vermelho. Jazia conectado e desamparado à figura maternal que olhava sem ver para os olhos do menino espantado.
Olharam-se por três vidas - as dos três ratos, que encontraram o inferno numas ratoeiras nojentas.
Quando o sol se ergueu, indicando mais uma manhã incesta de vida, os dois viram chegar a figura do algoz segurando um telefone.
"Já te digo algo de produtivo"
Esses foram seus últimos dizeres antes de revelar-se e fechar a porta atrás de si, em conflito exorbitante sobre o que desembainhar primeiro; o bisturi ou o membro.
- Madá
*AVISO: Queiram, por obséquio, considerar esse conto como obra FICTÍCIA sem referências com fim difamatório. Grata, a autora.*
Foi decisão bem acertada, essa de correr ao subúrbio voluptuosamente vaporoso, estonteante - mas não de beleza, que falo mesmo é da planta. Se bem que sua folha não deixa de ser, contudo, bela; Deus sabe como a planta aos montes ia tomando seu lugar nos objetivos mundanos, numa curva exponencial direcionada para aquele profundo limbo entre uma ligação neurônica e outra.
Subiu o bairro atento. Não sei a quê, que seu perseguidor parecia ver tanto quanto cego em tiroteio. Ouviu um barulho aleatoriado e coziu a sola do pé no asfalto ruas adentro durante uns três Faroestes Caboclos e meio, tropeçando como o cata-buracos que era, até achar freio preciso: um tiro que lhe raspou o cocuruto e por tão pouco não lhe apaga a memória que já não sabe se carrega o nome de D. Margarida ou D. Inácia, tampouco se é um desses o nome da finada sua mãe. Mais um, no umbigo fundo, que calou o incômodo da falta de cagar. O rapaz nada disse, mas podia ver o vapor saindo das carnes fermentadas de suas costas no asfalto se misturando com a fumaça de erva da atmosfera enquanto era arrastado pelo membro - o pé - até uma possível desova.
Quando chegasse talvez tivesse a sorte de ter as tripas já tão macias da fervura, que pela primeira vez teria a fome aquietada pelo tempo de um livro de salmos; mesmo assim, admitiu por bem chamar por Deus pelo caminho.
O homem que o capturou tirou o quepe e o uniforme e atarraxou-se com a bunda na poltrona de casa. Na manhã seguinte passaria o serviço para "o outro cara", aquele que fazia o trabalho realmente sujo. Travou o revólver e contou uns cinco maços de notas, que atirou sobre a cama onde repousavam uns papéis de importância relativa (em relação ao dono, duvidosa) onde constava um símbolo pomposo de cunho governamental. Neles, lia-se: POLÍCIA FEDERAL - TRABALHANDO PARA A SUA SEGURANÇA.
O documento abaixo era uma descrição da visivelmente bem-sucedida campanha de desarmamento daquele ano.
Descendo pr'um subsolo uns bocados, estavam uma saleta perfumada a gases fecais e lama três ratos, duas baratas e três corpos. Porém, diferente do que pensas, não estavam no caminho para a luz, senão com as pupilas bem dilatadas e acostumando-se à escuridão que era aquela espelunca. Olhavam-se: o garoto com a fome e a carne cozida, e aquela coisinha minúscula, a morena dos olhos grandes que nunca conheceu o amor consensual - em nenhum dos sentidos. Duas almas arrancadas da inocência juvenil que encontram uma bifurcação em seu caminho que as leva, lado a lado, a tropeçar sobre seu pequeno grande dilema moral.
Vingança ou morte.
Morte ou vingança.
Creio eu que morte nos dois casos, já que vingança e morte nem parecem mesmo esses dois caminhos adversos. Se o são, não de morte morrida ou matada, mas morte da alma e do corpo. No entanto, ambos já estavam putrefando suas almas. Não se pode dizer o contrário do pobre garoto que ali esperava a necrose carnal com desespero. Seriam, assim, mortos de qualquer maneira? Talvez eu tenha acabado de me debruçar sobre um paradoxo de pinóquio, afinal. Prossigamos, que vingança é para os não-mortos, e temos duas criaturinhas de olhos acesos de vontade de viver.
Não obstante, havia um defunto apenas no recinto.
O fruto da obscenidade humana coberto de sangue seco que mais parecia um coágulo grande demais. Crescia (?) de dentro da moça, como um pequeno broto de batada vermelho. Jazia conectado e desamparado à figura maternal que olhava sem ver para os olhos do menino espantado.
Olharam-se por três vidas - as dos três ratos, que encontraram o inferno numas ratoeiras nojentas.
Quando o sol se ergueu, indicando mais uma manhã incesta de vida, os dois viram chegar a figura do algoz segurando um telefone.
"Já te digo algo de produtivo"
Esses foram seus últimos dizeres antes de revelar-se e fechar a porta atrás de si, em conflito exorbitante sobre o que desembainhar primeiro; o bisturi ou o membro.
- Madá
*AVISO: Queiram, por obséquio, considerar esse conto como obra FICTÍCIA sem referências com fim difamatório. Grata, a autora.*

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