quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Não é culpa da Melinda

Enquanto de uns versos miados de amor
Para lá e para cá
Melinda não sabe o que fazer
Ela espera ansiosamente
Pelo encontro ardente entre o sol a sorrir
E a chuva a chover
Um punhado de ácidos que Melinda não vê
Espere um minuto
Onde está o sabor?
Melinda não vê.



-Madá

Hora das Sinopses: Kiminishika Kikoenai


 ~Oie, pipous ^ç^

      Bem, dessa vez vim falar sobre mangá (ainda irei variar muito, então não se assustem). A tradução do japonês é "Só você pode ouvir", e apesar de parecer algo mais puxado para o shoujo, não é bem assim, pelo menos ao meu ver: a história, escrita por Otsuichi, surpreende, e essa adaptação em especial tornou o conto algo muito mais palpável ~ e bonito.
      O mangaka é o Kiyohara, o mesmo de Another. Como outras milhares de pessoas conhecedoras de seu conteúdo, creio eu, achei muito formidável o enredo, que apesar de sutilmente, não deixa de apresentar o toque sobrenatural que é comum a ambos os criadores.

 ~ O mangá

                  

      Aihara Ryou é uma garota beeeeeem tímida. Tão tímida, que tem dificuldades na fala, apenas por causa da pouca frequência com que usa as palavras no dia-a-dia. Não obstante esse bug, ela tem um enorme desejo de ter um celular.
      Sua imaginação se torna cada vez mais fértil em torno do tal desejo, até que ela consegue visualizar a aparência de seu "celular ideal", imaginar de que tamanho seria, que toque teria, qual o wallpaper e coisas do tipo. Um belo dia, enquanto ela sonhava com seu celular ~ para variar ~ durante a aula, ouve-se o toque de um telefone. Até aí tudo bem. O problema é que O CELULAR NÃO É DE NINGUÉM.
      Xablau.
      Aí é que as coisas ficam interessantes (você estava aí achando que dormiria na primeira dúzia de páginas...): Ela começa a ter uma ideia um tanto quanto estúpida. Imbecil. Mas sua imaginação era fértil, o que custava sonhar um pouco? Ela checa sua imaginação, visualiza o celular-ideal-de-estimação e... Ele é que está tocando. Por sinal, ela percebe que o toque é o mesmo que ela havia imaginado para um possível celular físico. As coisas só melhoram: do outro lado da linha, ela ouve a voz de Nozaki Shinya.
      Com o tempo, ela descobre muitas coisas sobre seu novo celular, e sobre o rapaz com quem tem falado. E você descobre muitas coisas sobre a carga emocional que rodeia a história, que eu identifiquei como uma espessa camada de solidão envolto numa sopa de boas sensações que tem esses dois pombinhos, por finalmente serem ouvidos. É essa proposta, afinal. Só você pode ouvir.
      Bem, o que posso falar sobre essa pequena delícia one-shoot? Levei pouco mais de meia hora para devorar o mangá, acho que por culpa do ócio combinado com essa coisa que a história provocou em mim. Excitante, fofo e melancólico. O maior plot twist é o próprio fim da trama. E não é nada mau. Não vi absolutamente NENHUM detalhe a criticar, exceto, talvez, a parte em que *spoiler* e depois *spoiler*. Cara, como é que *spoiler* foi acontecer?
      Apesar de *spoiler* ter me deixado bem deprimida, são detalhes necessários, que dão uma riqueza de atrativos e que contribuem ativamente com o sentido da história. Detalhes sem os quais a mensagem que o Otsuichi quis passar viria disforme. Então, sim, não tenho críticas negativas.

     ~O Autor:

OTSUICHI
      Seu verdadeiro nome é Adachi Hirotaka. Ele é natural de Fukuoka, no Japão, e tem muitas histórias nas costas, e dou destaque especial para os clássicos Calling You, Kimi ni shika Kikoenai e Goth, e um de seus contos mais antigos, o Summer, Fireworks, and My Corpse, de 1996, bem como um dos mais recentes, Yagiza no Yuujin, de 2014. E isso é tudo o que sei sobre ele. Sei que ele é casado com uma mulher chamada Oshii Tomoe, mas isso é uma curiosidade fora do nosso foco.

KIYOHARA
      Sobre ele, sei menos ainda ~ apenas que produziu Another, cujo anime é bem famoso e cuja protagonista, Misaki Mei, está na lista de cosplays que ainda farei (:3).
      Ele tem outros mangás, como Tantei no Tantei (2014) e Tsumitsuki (2008). E só. Se souber de mais detalhes, atualizo vocês, pipous. Okay? Okay.

~ Bem, se você curtiu a indicação, corre em qualquer site que disponibilize conteúdo otaku online ou numa livraria (caso uma edição física te agrade mais, como agrada a mim). Vejo vocês na próxima indicação, okay? Será algo meio diferente...

KISSUS e BYE ;**

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Centopeia Humana

      No mesmo instante em que a refeição me vinha como um prato cheio, e eu me deleitava em toda aquela merda caudalosa que alguém despejou para aqueles como nós. Do forno anal direto para o âmago. E para o ânus. E eu não admitia como aqueles garçons não gemiam de prazer com tantas línguas sobre a carne macia de suas bundas. Mas ninguém se importa com os corvos.
      Ou com as bonecas.
      Logo, logo a merda digerida servirá de alimento para outras bocas, que lamberão outras bundas, que se arrepiarão (ou não) de forma que aquela orgia imunda jamais acabará, tal como é cíclica.
      Me pergunto se a merda final se parece com a primeira.
      Tragam os ovos e alguém se lembrará de Simone. Quem se lembrará de outras histórias de outros olhos?
      Agora eu faço piadas, mas não é tão fácil viver quando só o que vemos é a intimidade de alguém sem nunca ver seu rosto. Nem tão prazeroso quanto se a parte colada ao seu sexo fosse o meu próprio, mas, como eu disse, ninguém liga. Estamos sempre comendo e cagando, e comendo e cagando na cara de outras pessoas. Que vão acabar cagando nossos próprios dejetos em nossas bocas. Um círculo insere um ciclo, mas aqui o problema é outro.
      Se pelo menos aquilo o que passássemos adiante pelo ciclo fosse leite quente...



Madá

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Retrato Calado

      Em outubro de algum ano indigesto e de algum lugar cuja ciência sobre se dá por desnecessária, um tiro pôde ser escutado na atmosfera febril, tendo atingido uma algibeira esquecida na calçada, em frente a uma loja de conveniência igualmente desinteressante e assimilada ao poder do tempo de corroer a matéria. Uns poucos passos dali para o Sul estaria o autor do disparo, isso se já não estivesse a meio caminho de evaporar pela ladeira de pedra, veloz como a morte súbita e camuflado como um átomo na névoa, visto que ela já não permitia ver um palmo a frente do nariz. Errou o tiro, ma o local...
      Foi decisão bem acertada, essa de correr ao subúrbio voluptuosamente vaporoso, estonteante - mas não de beleza, que falo mesmo é da planta. Se bem que sua folha não deixa de ser, contudo, bela; Deus sabe como a planta aos montes ia tomando seu lugar nos objetivos mundanos, numa curva exponencial direcionada para aquele profundo limbo entre uma ligação neurônica e outra.
      Subiu o bairro atento. Não sei a quê, que seu perseguidor parecia ver tanto quanto cego em tiroteio. Ouviu um barulho aleatoriado e coziu a sola do pé no asfalto ruas adentro durante uns três Faroestes Caboclos e meio, tropeçando como o cata-buracos que era, até achar freio preciso: um tiro que lhe raspou o cocuruto e por tão pouco não lhe apaga a memória que já não sabe se carrega o nome de D. Margarida ou D. Inácia, tampouco se é um desses o nome da finada sua mãe. Mais um, no umbigo fundo, que calou o incômodo da falta de cagar. O rapaz nada disse, mas podia ver o vapor saindo das carnes fermentadas de suas costas no asfalto se misturando com a fumaça de erva da atmosfera enquanto era arrastado pelo membro - o pé - até uma possível desova.
      Quando chegasse talvez tivesse a sorte de ter as tripas já tão macias da fervura, que pela primeira vez teria a fome aquietada pelo tempo de um livro de salmos; mesmo assim, admitiu por bem chamar por Deus pelo caminho.
      O homem que o capturou tirou o quepe e o uniforme e atarraxou-se com a bunda na poltrona de casa. Na manhã seguinte passaria o serviço para "o outro cara", aquele que fazia o trabalho realmente sujo. Travou o revólver e contou uns cinco maços de notas, que atirou sobre a cama onde repousavam uns papéis de importância relativa (em relação ao dono, duvidosa) onde constava um símbolo pomposo de cunho governamental. Neles, lia-se: POLÍCIA FEDERAL - TRABALHANDO PARA A SUA SEGURANÇA.
      O documento abaixo era uma descrição da visivelmente bem-sucedida campanha de desarmamento daquele ano.
      Descendo pr'um subsolo uns bocados, estavam uma saleta perfumada a gases fecais e lama três ratos, duas baratas e três corpos. Porém, diferente do que pensas, não estavam no caminho para a luz, senão com as pupilas bem dilatadas e acostumando-se à escuridão que era aquela espelunca. Olhavam-se: o garoto com a fome e a carne cozida, e aquela coisinha minúscula, a morena dos olhos grandes que nunca conheceu o amor consensual - em nenhum dos sentidos. Duas almas arrancadas da inocência juvenil que encontram uma bifurcação em seu caminho que as leva, lado a lado, a tropeçar sobre seu pequeno grande dilema moral.
      Vingança ou morte.
      Morte ou vingança.
      Creio eu que morte nos dois casos, já que vingança e morte nem parecem mesmo esses dois caminhos adversos. Se o são, não de morte morrida ou matada, mas morte da alma e do corpo. No entanto, ambos já estavam putrefando suas almas. Não se pode dizer o contrário do pobre garoto que ali esperava a necrose carnal com desespero. Seriam, assim, mortos de qualquer maneira? Talvez eu tenha acabado de me debruçar sobre um paradoxo de pinóquio, afinal. Prossigamos, que vingança é para os não-mortos, e temos duas criaturinhas de olhos acesos de vontade de viver.
      Não obstante, havia um defunto apenas no recinto.
      O fruto da obscenidade humana coberto de sangue seco que mais parecia um coágulo grande demais. Crescia (?) de dentro da moça, como um pequeno broto de batada vermelho. Jazia conectado e desamparado à figura maternal que olhava sem ver para os olhos do menino espantado.
      Olharam-se por três vidas - as dos três ratos, que encontraram o inferno numas ratoeiras nojentas.
      Quando o sol se ergueu, indicando mais uma manhã incesta de vida, os dois viram chegar a figura do algoz segurando um telefone.
      "Já te digo algo de produtivo"
      Esses foram seus últimos dizeres antes de revelar-se e fechar a porta atrás de si, em conflito exorbitante sobre o que desembainhar primeiro; o bisturi ou o membro.




 - Madá

*AVISO: Queiram, por obséquio, considerar esse conto como obra FICTÍCIA sem referências com fim difamatório. Grata, a autora.*